O trânsito é algo que me frustra. Não pelos engarrafamentos, pedágios, buracos ou barbeiragens, mas sim pela falta de espírito coletivo das pessoas. Meu pai sempre diz que o trânsito revela as pessoas e pode-se perceber pelas suas ações no trânsito, como elas realmente são em relação à sociedade.
Pesquisadores já afirmaram que algumas pessoas tratam seus veículos como extensões delas próprias e que ali, dentro de um veículo, sentem-se em seus próprios ambientes reclusos quando na verdade estão no meio da rua, interagindo.
O trânsito, por definição, é muito simples:
X pessoas querem ir a
Y lugares diferentes utilizando um número
N de caminhos compartilhados por todas e seguindo um conjunto de regras para que possamos manter o sistema funcionando. Se fôssemos simular em um programa de computador, seria relativamente simples e nenhum acidente aconteceria, mesmo que houvesse um demora um pouco maior para alguns chegarem a seus destinos em pró do bem estar geral.
Entretanto, no mundo real, temos um componente chamado humano. Esse componente falha, falhou e falhará. Deve-se estar preparado para isso. Eis o principal motivo para se dirigir dentro das normas estabelecidas: por melhor que você pense que seja, a qualquer momento alguém pode cometer um erro e cortar sua frente. Um pedestre desatento poderá atravessar a rua. Uma criança poderá sair correndo atrás de uma bola. Ou um animal fujão poderá se atravessar diante do seu veículo. Supondo que se estando a 60 Km/h, você pudesse frear ou desviar tranquilamente, a 140 Km/h nem daria muito tempo de ter qualquer reação.
A respeito das velocidades máximas permitidas, ninguém as define aleatoriamente. Uma rodovia onde disseram que 50 Km/h é o máximo, provavelmente deve ser zona urbana, com fluxo intenso de veículos, pedestres, próximo a algum posto policial ou alguma curva muito perigosa. Só pelo limite estabelecido, sem saber de que estrada estou me referindo, sem conhecer o caminho, já se sei o que esperar.
E por que 50 Km/h? É número aleatório? Não, é o máximo considerado seguro levando em conta todos os fatores de risco da estrada, tais como condições da via, fluxo de pedestres e demais veículos. Talvez um motorista experiente com 20 anos de estrada sem nenhuma multa e um carro em ótimas condições, possa andar a uma velocidade superior no mesmo percurso, se estivesse sozinho com a estrada fechada só pra ele. Mas ele não está. Os terceiros vão cometer erros. Conviva com isso, todo mundo comete erros. Aliás, esse motorista também já deve ter cometido algum equívoco ao longo de sua jornada rodoviária.
A questão dos erros é tentar não se incomodar com os erros de terceiros, pois é uma constante humana. O que é difícil tolerar é a imprudência, pois isso é nada mais do que o aumento consciente e desnecessário das chances de um erro ocorrer.
Quantos acidentes fatais são ocasionados por excesso de velocidade e ultrapassagens irresponsáveis ou em locais proibidos?
No trecho entre Caxias e Farroupilha, apesar da pista dupla, há alguns trechos perigosos e famosos por acidentes fatais. Um deles é
a saída do desvio do pedágio, na Julieta, onde os veículos entram na rodovia ou reduzem a velocidade para entrarem no desvio. Nesse trecho, há uma extensa sinalização indicando a velocidade máxima como 60 Km/h, além de faixa contínua no eixo sinalizando ser proibida a mudança de faixa (como se alguém ligasse pra faixas contínuas). Além disso, há uma área à direita onde é possível os veículos que desejam sair da rodovia e entrarem no desvio, fazerem a frenagem final. Há uma parada de ônibus nessa área, muito mal posicionada por sinal, mas com espaço suficiente para um ônibus estacionar e os veículos passarem.
A saída do desvio para a rodovia é um pouco complicada e é aí que ocorrem os acidentes. Para ir do sentido Caxias - Farroupilha, os veículos que saem do desvio precisam cruzar a pista Farroupilha - Caxias e fazer o retorno, há cerca de 200 metros adiante.
Primeiro, começando pelos veículos que passam pela rodovia em velocidade muito superior aos 60Km/h estabelecidos. Pior: se você estiver na faixa da esquerda e andar a 70Km/h - já acima do limite, provavelmente terá um carro atrás "colado" e dando sinal de luz. E quando digo muito superiores, é 100, 110 Km/h ou mais.
Segundo, as pessoas desconhecem o conceito de fila e ao invés de ficarem atrás do veículo que está para sair do desvio, enfiam seus automóveis em qualquer brecha cortando quem está por primeiro na fila. Se a primeira pessoa da frente sair também, a desgraça está prestes a ocorrer e se o "dono da estrada" estiver a 120KM/h, dificilmente poderá fazer algo para evitar o sinistro.
Trata-se de puro espírito coletivo. Quando estou na direita e vejo uma série de veículos no acostamento querendo entrar na pista, se tenho toda a faixa da esquerda livre e é possível mudar para ela, qual a dificuldade em conferir no retrovisor, sinalizar e trocar de faixa para permitir os veículos entrarem? Nas grandes cidades, em certos cruzamentos, às vezes é impossível para alguns veículos atravessarem se terceiros na preferencial não colaborarem, simplesmente reduzindo a velocidade e indicando com um sinal de luz que vão dar passagem para o outro passar. Simples, fácil, pura questão de civilização. Hoje é ele, amanhã é você.
Trata-se também de uma questão de humildade, de reconhecer que sei menos sobre o trânsito do que quem estudou para isso. Os engenheiros que projetaram a estrada - sim, são engenheiros, não o carinha que passa largando piche - planejaram onde seria mais seguro ultrapassar. Eles estudaram para isso, eu não. A não ser que você seja motorista de ambulância, bombeiro ou carro de polícia, não tem nenhum motivo racional para ultrapassar em um local proibido, salvo alguma exceção bizarra como um sociopata perseguindo você. Aí eu até entendo. E recomendo. Fuja, mas tente pelo menos ligar o pisca pra avisar o que vai fazer.